Crônica 1- Sobre a Morte

Eu nunca pensei tanto na morte quanto tenho pensado, algo que está suavemente presente em uma reflexão que acompanha sempre meu olhar: "O agora que já vai, o vínculo que se desfaz, eterna transmutação".

Semana passada, uma das mais belas beldades da cidade, foi de maneira repentina...

Aneurisma

Tão nova, costumava ver ela no clube...

Era abastada, cursou arquitetura, e assim que terminou o curso, já tinha escritório montado e uma lista de clientes, todos amigos e conhecidos dos seus pais, amigos da época de escola, a alta classe média da cidade vive numa espécie de seita.

Não éramos conhecidos, se trocamos meias palavras, foi só uma vez...

Já tinha um aspecto efermiço, pouco saudável, branca feito osga, pequena e pouco feita a sorrisos...

Ainda com esses predicados, tinha uma beleza de encanto pictórico, um estilo americano de filme slasher dos anos 80, para aqueles que tem uma queda pelo olhar de peixe morto, essa moça evoca esse encanto...Ainda me lembro a primeira vez que vi a imagem da morte, do podre, da carniça.

Acordava às 6h para pegar o ônibus, e ir para faculdade, a parada do ônibus era bem perto de minha casa, apenas um quarteirão, da esquina da José Bonifácio com a Conselheiro a esquina da Castelo Branco com a mesma Conselheiro....

E ao subir a conselheiro, me deparei com um urubu se alimentando na vala, um cenário quase onírico, de pouca gente na rua, um parco amanhecer e um olhar recém acordado, me vi naquela cena....

Não conseguia decifrar o que ele comia, talvez algum verme de vala , mas a visão que me aguardava, me marcou tanto que veio parar aqui...

Era um gato

Nem tão morto, poderia até ser dado como apenas dormindo, se não fosse o buraco vazio, de um de seus olhos...

Onde o urubu puxava, com insistência, uma espécie de fio ou terminação nervosa, esticava e aquilo puxava de volta...

E ele continuava nisso, enquanto eu passava por eles. 

Essa imagem se repetiu em outros momento e outros lugares, animais mortos na rua, não são novidade, e é possível ver de todo tipo, e quase que se misturam na paisagem de uma cidade suja.

Lembro-me de outro gato, que se misturava com os sacos de lixo no poste, o estômago estava para fora, e cheio feito um balão, gáses pos mortem talvez ?

Um cachorro certa vez, rente ao muro do monte líbano, eu estava indo para um ensaio de valsa de quinze anos de alguém que já nem lembro o nome, e os restos desse animal se misturavam com a sujeira do chão, feito papel molhado...Amarelo...

As costelas para fora...

...já se decompondo...

Ratos cortados pela metade...esmagados feito papel...e assim por diante

A morte não é algo tão distante do cotidiano


18/05/23

“Kunst ist magie, befreit von der Lüge, Wahrheit zu Sein”

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