Lendo Joaquim Maria Machado de Assis #4

Contos Fluminenses (1870)  

O SEGREDO DE AUGUSTA

As questões conjugais, aspirações de classe, casamentos arranjados, amizades e mentiras fazem parte do foro íntimo da rotina de um casamento. Esse é um terreno fértil da prosa machadiana no decorrer de toda a sua obra. Talvez tudo isso faça parte de uma representação da natureza humana, bastante consciente e irônica, que também, em alguma medida, aponte para o olhar arguto que o autor tinha da sociedade em que vivia. E que ainda é possível visualizar a olho nu, 150 anos depois.

Machado, nesse conto, já começa nos apresentando um narrador presente, o que é comum nessa fase do autor, como segue no trecho:

“Comecei dizendo que Adelaide era filha de Augusta, e esta informação, necessária no romance, não o era menos na vida real em que se passou o episódio que vou contar, porque à primeira vista ninguém diria que havia ali mãe e filha; pareciam duas irmãs, tão jovem era a mulher de Vasconcelos.”

O título do conto já aponta que teremos uma figura feminina como centro da narrativa, e ela sendo a mãe, já indica os desenlaces conjugais que comentei no primeiro parágrafo.

“consciência da beleza e da mocidade; consciência que seria louvável se não tivesse como conseqüência uma imensa e profunda vaidade.”

A filha, quase como um duplo da mãe, porém ainda em formação, aponta para o aspecto da diferença etária, ao mesmo tempo que comenta relações de educação e valor, no caso, de formação feminina.
“O que lhe valeu é que tinha em sua mãe uma excelente mestra.”

Outro detalhe importante nessa introdução é o horário: “são onze horas da manhã” — a verdade é que esse detalhe abre o conto, porém trouxe-o para este ponto justamente para servir como plano de fundo do trecho do diálogo de Augusta com Carlota… que caracteriza nosso “chefe da casa”.

O chefe da casa, o marido de Augusta, tem como primeira característica apresentada não uma descrição como a de Augusta, mas o horário em que acorda: “são onze horas da manhã”. É um plano de fundo curioso, não apenas em contraste com a dinâmica posta de mãe e filha, mas por já apontar o cenário social de que os personagens fazem parte e a ausência de suas obrigações no que tange ao trabalho. Característica que pontua, por exemplo, Brás Cubas no futuro: “não paguei o pão com suor do trabalho”.

No segundo capítulo, temos finalmente uma descrição mais direta do pai da seguinte forma:

“Vasconcelos era um homem de quarenta anos, bem-apessoado, dotado de um maravilhoso par de suíças grisalhas, que lhe davam um ar de diplomata, coisa de que estava afastado umas boas cem léguas. Tinha a cara risonha e expansiva; todo ele respirava uma robusta saúde. Possuía uma boa fortuna e não trabalhava, isto é, trabalhava muito na destruição da referida fortuna, obra em que sua mulher colaborava.”

 Em seguida, temos mais personagens:


“exatamente quando entrava o irmão, que não pôde deixar de exclamar:

Batista era um rapaz de vinte e cinco anos; era o tipo acabado do pândego; excelente companheiro numa ceia de sociedade equívoca, nulo conviva numa sociedade honesta. Tinha chiste e certa inteligência, mas era preciso que estivesse em clima próprio para que se lhe desenvolvessem essas qualidades. No mais, era bonito; tinha um lindo bigode; calçava botins do Campas e vestia no mais apurado gosto; fumava tanto como um soldado e tão bem como um lord.”


No geral, até agora, as caracterizações de personagens por Machado seguem um padrão em todos os contos até aqui: são períodos com uma descrição bem sucinta, onde se detalha a idade, um pouco do humor, comportamento e a aparência. No geral, são orações paratáticas (são orações independentes e podem ser ligadas por conjunções ou simplesmente colocadas lado a lado, separadas por vírgulas ou pontos). Não são construções muito elegantes; ele não faz grandes justaposições e interligações entre as frases.


Mais uma vez o narrador intervém diretamente ao apresentar um personagem que fecha a trinca de amigos:


“O novo personagem, o Gomes tão desejado e tão escondido, representava ter cerca de trinta anos. Ele, Vasconcelos e Batista eram a trindade do prazer e da dissipação, ligada por uma indissolúvel amizade. Quando Gomes, cerca de um mês antes, deixou de aparecer nos círculos do costume, todos repararam nisso, mas só Vasconcelos e Batista sentiram deveras. Todavia, não insistiram muito em arrancá-lo à solidão, somente pela consideração de que talvez houvesse nisso algum interesse do rapaz.”


E finalmente surge o principal desenlace da narrativa:


“Gomes foi, portanto, recebido como um filho pródigo. — Pois é simples; estou criando asas de anjo, e quero voar para o céu do”

“modo diverso, mas eu acho que tenho razão em dizer que sem o amor casto e puro a vida é um puro deserto.”

“— Não sei se vou casar; sei que amo, e espero acabar por casar-me com a mulher a quem amo.”


“Gomes falava uma linguagem estranha, e inteiramente nova na boca de um rapaz que era o mais doido e ruidoso nos festins de Baco e de Citera.”


“— Mas, afinal de contas — disse Vasconcelos —, onde está a tua Marion? Pode-se saber quem ela é?”

“— Não é Marion, é Virgínia... Pura simpatia ao princípio, depois afeição.”

Marion é a personagem-título da peça Marion Delorme (1831), de Victor Hugo (1802-1885). A peça se inspira na vida real de Marion Delorme, uma cortesã francesa (1613-1650), conhecida por suas relações com homens importantes de seu tempo.

Virgínia é a personagem feminina central de Paulo e Virgínia (Paul et Virginie, 1788), de Bernardin de Saint-Pierre (1737-1814), um pequeno romance pastoril em que se narra o amor puro entre dois jovens que crescem longe da civilização.


No capítulo três, temos finalmente o impasse que o autor vai propor, pois a música de Gomes não podia ser diferente; trata-se de:

“saber quem é a escolhida do meu coração; trata-se de tua filha.”

(...)

“— A condição da reciprocidade. Ama-te ela?

— Não sei — respondeu Gomes.

— Mas desconfias...

— Não sei; sei que a amo e que daria a minha vida por ela, mas ignoro se sou correspondido.”


A trama parece que vai caminhar para simples impasses sentimentais, num tom até nobre: o pai se dispõe a perscrutar os sentimentos da filha, já tendo o otimismo de ter o amigo como genro; parecem já as simples formalidades de relações que se constituem por dividir o mesmo núcleo de convívio. Porém, M. A. ainda pretende revelar ainda mais a natureza sórdida dos interesses humanos.


Surge mais um personagem, que é posto quase como mais um elemento direto da equação dramática:


“O Sr. José Brito era para Vasconcelos um verdadeiro fantasma, um eco do abismo, uma voz da realidade; era um credor.


— Vem buscar o dinheiro?

— Aqui está a letra — disse o Sr. José Brito, tirando a carteira do bolso e um papel da carteira.

Vasconcelos puxava o charuto, a ver se lhe ocorria alguma ideia boa de escapar ao pagamento com que ele não contava.”


“— É verdade; as suas casas da Rua da Imperatriz estão hipotecadas; a da Rua de S. Pedro foi vendida, e a importância já vai longe; os seus escravos têm ido a um e um, sem que o senhor o perceba, e as despesas que o senhor há pouco fez para montar uma casa a certa dama da sociedade equívoca são imensas. Eu sei tudo; sei mais do que o senhor...

Vasconcelos estava visivelmente aterrado.”

(A rua da Imperatriz era o antigo caminho do Valongo (e, depois, rua do Valongo), na zona portuária do Rio de Janeiro. Em 1842, a Câmara da cidade mudou-lhe o nome para rua da Imperatriz por ali ter passado a imperatriz Teresa Cristina após desembarcar na cidade, vinda de Nápoles, já como mulher de D. Pedro II, com quem se tinha casado por procuração. É a atual rua Camerino.)


(A rua de São Pedro da Cidade Nova começava no campo da Aclamação (atual praça da República) e terminava no canto da praia Formosa (atual rua Pedro Alves), na região portuária. Apenas o trecho da rua que ia até a praça Onze de Junho se chamava “de São Pedro”. A continuação até a praia Formosa denominava-se rua do Aterrado. Em 1869, a parte do Aterrado passou a chamar-se rua do Senador Eusébio. Cinco anos depois, essa denominação passou a designar as duas porções, pois uma era o seguimento da outra. Ambas desapareceram quando da abertura da avenida Presidente Vargas.)


A perda de um padrão de vida, e principalmente a queda na escala social, seria a morte em vida para Vasconcelos e, posta essa situação, o capítulo anterior já ganha outro sentido, expondo mais sobre os interesses dos personagens. Tal movimento seguirá até o fim.


“Gomes é rico, pensou Vasconcelos; o meio de escapar a maiores desgostos é este; Gomes casa-se com Adelaide, e, como é meu amigo, não me negará o que eu precisar. Pela minha parte procurarei ganhar o perdido... Que boa fortuna foi aquela lembrança do casamento!”


Vasconcelos comeu alegremente; voltou depois ao Alcazar, onde alguns rapazes e outras pessoas fizeram esquecer completamente os seus infortúnios. Às três horas da noite, Vasconcelos entrava para casa com a tranquilidade e regularidade do costume.”


(O café-teatro Alcazar Lyrique, inaugurado em 1859, ocupava cinco prédios vizinhos na rua da Vala (chamada, depois da Guerra do Paraguai, rua Uruguaiana). Propriedade do artista francês Joseph Arnaud, tinha como principal atração a reprodução do estilo dos cabarés franceses. Nele se apresentavam vaudevilles, comédias leves e muito movimentadas, que originariamente comportavam cenas cantadas e passaram, em seguida, a caracterizar-se pelos quiproquós, por situações imprevistas e intriga complexa. Nele encenavam-se também operetas e se promoviam bailes de máscaras e a fantasia.)


De fato, nessa altura, a sutileza talvez não fosse o forte de Machado; mas também pudera, os contos reunidos no Jornal Fluminense eram publicados no Jornal das Famílias. O contexto, de alguma forma, molda certos aspectos formais. (Existem alguns estudos sobre como, nesse período, a escrita machadiana tinha uma forma característica, baseada nesse contexto de publicação.)


O impasse que é posto em seguida é que a filha possui, como traço de caracterização, essa devoção ao pai. E a situação ainda se torna mais intrincada pelo seguinte:


“Adelaide não amava ninguém. A sua recusa não tinha por ponto de partida nenhum outro amor; também não era resultado de aversão que tivesse pelo seu pretendente.”


Vasconcelos tinha certeza de que a filha cederia, apesar da oposição de alguns personagens, que talvez representassem algum resquício moral que se esperasse da sensibilidade da época.

“— Entretanto, Augusta, não podemos prescindir deste casamento... É uma necessidade fatal.”


Augusta, a dona do segredo da história, se coloca como oposição aos desejos do marido. Não bastasse os interesses sórdidos do marido terem sido expostos, o casal entra num conflito ao apontar o responsável pela perda da fortuna.


“O amor do luxo e do supérfluo, disse ele, há de sempre produzir estas consequências. São terríveis, mas explicáveis. Para conjurá-las era preciso viver com moderação. Nunca pensaste nisso. No fim de seis meses de casada entraste a viver no turbilhão da moda, e o pequeno regato das despesas tornou-se um rio imenso de desperdícios.”


Vasconcelos não olha para os próprios defeitos e, hipocritamente, descreve um discurso sobre moderação, sem perceber o absurdo de seus interesses com o casamento da filha; e, no final, ainda dá o motivo de sua falta de intervenção: “queria paz doméstica”. Essa é uma descrição atroz de M.A sobre a vida conjugal: a ideia de luxo e consumo, comuns às classes abastadas, baseada na noção de paz e guerra dos polos dessa relação.


Tudo isso ainda contrasta com as aspirações dos sentimentos de amor da filha, que desde o início é posta como duplo da mãe. Será que, antes de Vasconcelos pedir a mão de Augusta — à época com a mesma idade da filha — se tratava de sentimento verdadeiro?


Augusta, porém, ainda assim não consente com a ideia de casar a filha para manter a família com o mesmo padrão de vida:


“Não! clamou ela; o senhor queria ter por sua parte uma vida livre e independente; vendo que eu me entregava a essas despesas imaginou comprar a minha tolerância com a sua tolerância. Eis o único motivo; a sua vida não será igual à minha; mas é pior... Se eu fazia despesas em casa, o senhor as fazia na rua... É inútil negar, porque eu sei tudo.”


Nasce o ciúme então:


"Augusta recusa a mão de Adelaide para o Gomes; por quê?" De pergunta em pergunta, de dedução em dedução, abriu-se no espírito de Vasconcelos campo para uma suspeita dolorosa.

"Amá-lo-á ela?" perguntou ele a si próprio.


Vasconcelos é de uma perversão que beira o absurdo: além de querer casar a filha, além de se ver exposto em sua conduta para o estado atual de suas economias, coloca ainda a desconfiança sobre a própria mulher... Novamente poderia se apontar o eco do que viria a ser, posteriormente, Capitu, mas essa é outra temática bastante presente na obra de M.A: o ciúme, que talvez sirva muito como descrição de como as mulheres eram tratadas à época.

O narrador intervém, então, para expor ao ridículo a conduta de Vasconcelos. Talvez, em penas posteriores, Machado deixasse para o leitor a revelação do tal “segredo de Augusta”:


“Devo dizer a verdade: não tinham. Augusta era vaidosa, mas fiel ao infiel marido; e isso por dois motivos: um de consciência, outro de temperamento. Ainda que ela não estivesse convencida do seu dever de esposa, é certo que nunca trairia o juramento conjugal. Não era feita para as paixões, a não ser as paixões ridículas que a vaidade impõe. Ela amava antes de tudo a sua própria beleza.”


Gomes se torna suspeito; Vasconcelos passa a investigar todos os anos anteriores.


Ainda pensando nessa questão do ciúme e da desconfiança, os olhos, tão presentes na obra machadiana, reforçam a recorrente desconfiança do olhar:


“Quando Gomes chegava, Vasconcelos observava a mulher com desusada persistência; a própria frieza com que ela recebia o rapaz era aos olhos do marido uma prova do delito.”


Mais adiante, um espelho é novamente posto diante de Vasconcelos para que ele perceba a própria perversão — desta vez com uma conclusão mais direta para o conto:


“— Igual à tua — disse Lourenço. — Tu dás-lhe a filha com os olhos na fortuna dele; ele aceita-a com os olhos na tua fortuna...”


“— Mas ele possui...”


“— Não possui nada; está arruinado como tu. Indaguei e soube da verdade. Quer naturalmente continuar a vida dissipada que teve até hoje, e a tua fortuna é um meio...”


Tudo acontece sem grande elaboração descritiva, com certa pressa narrativa. Logo em seguida, convenientemente, Gomes chega em casa, sobe e dá desfecho à história:


“— Aprecio a tua franqueza e aceito a tua filha sem fortuna; também eu não tenho, mas ainda me restam forças para trabalhar.

— Aceitas?

— Escuta. Aceito D. Adelaide mediante uma condição: que ela queira esperar algum tempo, a fim de que eu comece a minha vida (pedir um lugar no governo)...”


E o narrador encerra com ironia:


“De tudo quanto ele disse, só acredito que já não tem nada. Mas é inútil esperar: duro com duro não faz bom muro.”

ela sua parte, Gomes desceu a escada dizendo consigo:


“O que acho singular é que, estando pobre, viesse dizê-lo assim tão antecipadamente, quando eu estava caído. Mas esperarás debalde: duas metades de cavalo não fazem um cavalo.”


Assim, é curioso como Gomes é posto como um duplo de Vasconcelos, da mesma forma que a filha aparece como uma cópia em amadurecimento da mãe. No fim, Machado reflete um certo caminhar natural dos interesses mesquinhos da vida conjugal: no fundo, Vasconcelos e Gomes são a mesma figura do homem da época; assim como Augusta e sua filha reproduzem um mesmo padrão feminino. A trama está resolvida, mas restava ainda o tal “segredo de Augusta”:


“Uma coisa, porém, o embaraçava: era a insistência de Augusta em não consentir no casamento de Adelaide, sem dar nenhuma razão da recusa...”


“Eu tenho medo por causa dos filhos dela, que serão meus netos! A ideia de ser avó é horrível, Carlota.”


Vasconcelos ouviu a conversa, e Machado conclui com uma descrição belíssima sobre o efeito daquela revelação em ambos:


“A conversa parou nisto; porque aqueles dois consortes distanciavam-se muito: um tinha a cabeça nos prazeres ruidosos da mocidade, ao passo que a outra meditava exclusivamente em si.”


Que ótima construção machadiana essa — uma descrição sucinta e certeira da natureza das duas personagens, da natureza de homem e mulher tal como representada ali, da natureza humana e da vida conjugal. Afinal, existe alguma relação que não é atravessada por interesses escusos na obra machadiana? 


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